nunca mais escrevi nada
tenho sido só suor e carcaça
mais um homem na estrada
com umas pernas tortas
e ideias erradas
como se previnir de rachar?
como rir sem atuar?
a dor vale a pena se não somos galinhas?
pensar como adulto
ou com o coração?
parece que tô sempre de luto
parece que não me dou perdão
acontece que eu tô sempre puto
acontece que não sei mais de nada não
um doador de órgãos
sendo que nenhum presta
um filho de pais órfãos
bom moço, arroz (integral) de festa
a flecha e o arco de ontem
é a qualificação e o diploma de hoje
a dificuldade em se tornar maior de idade
ninguém faz alarde, ninguém debate
a nova geração é sempre mais fraca
mais burra, mais preguiçosa
boa mesmo é a nossa de ressentidos
mal resolvidos com os outros e consigo
atrasado pra estar nesse ecossistema
de problema em problema vou vivendo
e com esse, vejo que sou pequeno
enquanto eu tô evaporando
tu não tá nem acordado
porque é muito tarde
e sou quase um gato
porque antes sou um porra
rezo e imploro a qualquer deus
pra dormir mais um pouco, mais meia hora
mas nunca, nunquinha, durmo antes das nove horas
sou um cacto desesperado
há muito tempo sem ser regado
no solo árido e estéril da metrópole
secando aos quatro ventos do norte
exposto como meu sofrimento
que escrevem por mim as ideias erradas
que tento previnir, sem sorte