NEM A MOTORISTA, NEM A PASSAGEIRA TAMPOUCO A COBRADORA

a vida chegou

e eu nada

a vida chegou

onde eu tava?

o que sobrou

do espatifamento de uma taça

sou eu: vários pedacinhos

que não formam mais nada

não há cola-1000 que dê jeito

não dá nem pra dar uma amenizada

será pra sempre um defeito

ser desse jeito em uma vida concatenada

a vida chegou

e tu nada

a vida chegou

onde tu tava?

depois do susto nesse absurdo

sento e controlo a respiração

tá tudo bem, não sou só eu que sou impuro

tá tudo bem, não sou só eu que sou uma aberração

um pouco depois do susto

mas ainda em curto, te juro firme:

não tá nada bem

com um narrador de fundo de brinde,

reafirmando a sentença da personagem:

“dos vera, nosso poetinha tá mal que nem finge”

será se ela chegou?

parece afogada

será se ela deslanchou?

parece atolada

tu já está no inferno

tu já parou pra pensar nisso?

sem pensar de maneira reativa

só pensar pra ti, pra dentro

teu lugar tá garantido

fique tranquilo

quando a vida chegar mesmo

tu vai se perguntar se foi só isso

que foi vivido mesmo

pra ter uma dupla certeza que

é tão certeza quanto a única

e sem tu perceber,

teus cílios tão só remela,

o sol nasce escancarado na tua fuça,

tu acorda com fome,

pra onde? de quê?

cadê ela?!