almejaria ter o conhecimento de causa
suficiente do próprio corpo pra poder
exportar com precisão tudo que sinto,
acorde não acorde sim, letra não letra sim,
traduzir em linguagem compreensível
o que corre entre meus circuitos sanguíneos,
elétricos e memoriais de curumim
essa montanha russa sem fim
com muito mais descidas que subidas
com muito mais faltas que sobras
poucas janelas, muitas portas
navegando, nas próprias lágrimas, a canoa sozinho,
desço o rio desconhecido, turvo e sem caminho
meu destino não sei qual deus que martela
à minha frente apenas meu pomposo nariz
se tivesse alguma usura
qualquer uma, por mínima
não seria cagado e esculpido
à imagem e semelhança
dos povos oprimidos
meu corpo desconfigura e trovoa
sinto o primata que sou, à toa, quando
atravesso as pororocas das emoções
correndo bufante do rio das dúvidas
pra desembocar no mar das ilusões,
tremendo e trovoando entre
meus intestinos e corações