CEROTO

Desde que perceba interesse mútuo no consenso, buscar dialogar com vários tipos de gente sobre vários tipos de assunto é muito válido pra experiência humana. A esquisitice desperta uma curiosidade genuína ao passo que a mornidão castra. Essa inclinação ocasionalmente vai gerar alguns atritos, como qualquer inclinação, daí não há como escapar de ser um babaca na perspectiva do outro, que pode ser qualquer pessoa, das mais próximas às mais distantes, conhecidas ou não.

O que é perfeitamente natural, como a criação de fronteiras que, tais quais as "reais", são imaginárias e fruto de um consenso. Vai fortificando-se nossa áurea, o campo de energia que nos cerca, a sintonia que nos circunda. Essas linhas limítrofes são o autoreconhecimento do próprio território representado pelo nosso corpo, uma espécie de diploma, um tratado de tortas ilhas. De trauma em trauma, de gozo em gozo, entre razões e emoções, de trezentos e sessenta e cinco dias em trezentos e sessenta e cinco dias completamos uma orbitada no próprio eixo. Feito um anjo uma vez me declamou: um revéillon particular. Vamos torneando nossa personalidade, caráter e valores — doravante combo BigSapiens com fritas — sob várias camadas de sebo, suor, pêlo, mau hálito e sangue, em quaisquer direções ou orientações ou nortes.

Em algum momento assimilamos com maior entendimento que é impossível agradar toda unidade de ser humano — afinal, nos é natural o ímpeto de ser bem quisto, apenas quem se emancipa logo após o parto são os natimortos —, alguns sofrem mais cedo, outros mais tarde, uns lidam de maneira praticamente nata, como limpar a bunda com um papel de folha dupla e perfumado com fragância de cocô cheiroso, e outros com alguma dificuldade, como ir do térreo ao primeiro andar de joelhos pelas escadas.

É difícil encontrar os extremos, também não nos importa muito, nos importa a palavra e a assimilação dela que acontece lenta e gradativamente, como se dançasse coladinho dela ao som de "Glamurosa" do MC Marcinho, porque tanto os animais quanto a palavra estão em mutação, a pleno vapor, seguindo reto toda vida, no tempo e no espaço, paralelamente. "Nem Cristo agradou todo mundo", pois é, nem Cristo, avalie os carrascos. Querer agradar ou ser bem quisto é uma vontade ambígua, reconfortante quando brota de boas intenções, quando ressoa, quando se é visto e ouvido e é desnorteador e angustiante quando exercida sem qualquer intenção própria, de maneira forçada, coagida, ameaçada, intimidada, abusada. É uma variante de dente-de-leite psicoemocional, uma catapora do espírito, a febre da alma.

Esse dente-de-leite nunca vai de fato "cair", mesmo que digam que é impossível agradar a todos desde quando no lugar de pêlos tínhamos cecê. Época que comumente se inauguram alguns aromas corporais na nossa máquina orgânica sustentada em um esqueleto com armadura fofa de músculos e gordura, controlada por um troço que parece uma macarronada de tripa elétrica — doravante "obra-prima" —, além dos clássicos bosta, vômito e mijo.

Ouvimos mil vezes que é impossível agradar todo mundo e vamos ouvir mais outras dez mil e depois mais uma. Quando as pessoas nos falam isso, evidente que elas não estão falando das oito bilhões de maneiras únicas e instransferíveis de ser triste, elas se referem a todo mundo ao nosso alcance, no nosso raio, na nossa órbita. Isso posto, é impossível agradar todo mundo ao nosso alcance? E a metade do nosso mundo? E a metade da metade do nosso mundo? O que é agradar, afinal? Talvez por isso — a impossibilidade de agradar todo mundo — parte das pessoas estejam cada vez mais induzidas e condicionadas a agradar a si próprias quase que exclusivamente, parte suficiente que forma um exército apátrida, descentralizado, alienado e desarmado, composto por indivíduos mal informados. Onde o único sentido que importa é o da subordinação.

Cada unidade de habitante "racional" nessa pedra gigante suspensa no vácuo tem seu tempo, processo e método de assimilação de palavras ou sentenças que, embora conheçamos todos os caracteres, saibamos os fonemas, a escrita correta — a nível de se fazer entender ou em consonância com o mais recente acordo ortográfico entre os países explorados, vilipendiados e estuprados pelos lusitanos — e até a tradução pra outros idiomas, nunca jamais acontecerá de a assimilarmos — a palavra — em sua infinda completude. Me é estranho também pensar sobre algo completo não ter fim, a palavra tem dessas, quanto mais se sabe, mais se sabe o que e o quanto não sabe.

Incorporamos porcentagens, grão a grão. E em toda a nossa gama única de camadas, espectros, matizes, paralelidades e interseccionalidades vai se torneando, se esculpindo, se rachando, o nosso BigSapiens com fritas, como naquele joguinho que simula a vida, The Nãos. Só que na versão live-action com a mais recente tecnologia sensorial e emotiva do mercado, recarregável através da metabolização de glicose e filosofia.

Quando o cecê já tá controlado, os pêlos já tomam toda a "obra-prima" e — meu deus!!! — começam a esbranquiçar é quando a fichar começa a cair. Esses são alguns anúncios do início da nossa segunda volta em Saturno, que também é conhecida como "maturidade". Mas convenhamos que "o início da segunda volta em Saturno" é bem mais bonito, pois nos ajuda a fantasiar que somos, noves fora, um corpo celeste conglomerado de poeira estelar viajando no vácuo orbitando Saturno porque é uma peteca de caroço de tucumã com anéis muito esplendorosos, em contraponto à "maturidade" que passa a ideia de sermos uma goiaba amarela sendo banquete de passarinhos fofos que cantam dócil e diariamente palavrões e xingos. Talvez seja melhor orbitar Saturno na ala metafórica da existência terráquea. Coincidentemente, vivo no início da minha segunda volta em Saturno.

Quando anúncios como esses rolam, em termos gerais, esse combo BigSapiens com fritas ganha "corpo", solidifica-se, impõe-se, enraíza-se sempre-infinitamente de maneira gradativa para mais e para menos. O ponto de partida, nosso nascimento, é tão distante e inalcançável quanto nosso ponto de chegada. Nunca mais poderemos voltar à infância senão através da memória — essa ilha de edição maravilhosa — e nunca enganaremos a morte. Vivemos no fogo cruzado entre essas duas inalcançabilidades enquanto a estrelinha anã mixuruca e xoxa que nos possibilita a vida exploda. Portanto o combo BigSapiens com fritas passa a repelir, romper e — mais grave e contundente — indiferir.

É aí que a jiripoca pia enquanto a cobra fuma e deus chora frente ao seu PC gamer divino — deus, apesar da inversão de paletas, usa AMD —. É indiferir mesmo, soa estranho porque é um verbo, digamos, gandula, extra-oficial, que corre por fora, dos bastidores, assíduo frequentador do VA - Verbos Anônimos ou, de maneira mais simples, não está no dicionário oficial das palavras oficiais reconhecidas por oficiais linguísticos de alta patente. É um verbo perfurocortante, espécie de mutação mais intensa e dilacerante do ferir, porque mais que te fere, te fere com a anulação do outro projetada em ti, consciente ou não, e não uma comum inversão do verbo diferir.

Ao longo da nossa jornada a esmagadora maioria dos nossos coadjuvantes já têm sua dose honesta da nossa indiferença, não dá pra ser filho, irmão, primo, amigo, melhor amigo, namorado, parente, aluno e professor, em suma, não dá pra ser o Xororó de todo Chitãozinho que nos aparece. Aqui falo das relações com as pessoas que escolhemos — exceto no caso dos pais, porque aí é sorteio genético — que caminhem ao nosso lado.

As mais próximas na nossa órbita, geralmente parentes, amizades e amizades românticas são pessoas capazes de nos fazer chorar o Rio Negro pelo olho esquerdo e o Solimões do lado direito de tanto rir ou de depressão suicida. Nossas queridas "obras-primas" do além-corpo. O resto usufrui de nossa indiferença cotidiana e perfeitamente natural.

Dito isso, o acúmulo desenfreado de patrimônio incentivado a torto e a direito deveria ser o de colecionar momentos, se permitir iluminar pelo sorriso alheio, ser bobo, rir fácil, mas não de qualquer merda, estar rodeado por quem nos gosta e nos respeita, independente de laço sanguíneo — que, afinal, só significa isso mesmo, um barbante de sangue, família é outra coisa — que não tenha vergonha de estar conosco, nossos gostos, que nunca precisem nos aturar porque têm a liberdade de se mostrar desconfortáveis na nossa presença e não em nossa ausência, em suma, pessoas que tenham tendência a querer por os pingos nos is ao invés de tenderem manifestar-se por reticências recheadas de suposições de foro íntimo, aquele tribunal mental que todos temos onde é proibido entrar o advogado da outra parte. E feito a justiça brasileira, vestimos uma venda não para "fazer justiça sem olhar a quem", mas para ignorarmos toda a realidade que nos cerca.

Ser demais onde achar que devemos, ser comedido à medida. Progressivamente ir melhorando a bússola periclitante que carregamos na caixa toráxica. Sofrer por amor e sempre estar disposto a sofrer de novo, o famoso "morrer de amor e continuar vivendo". Só acabamos quando terminamos e ainda assim é um fim exclusivo da matéria, no abstrato ainda teremos alguma sobrevida até que desapareçamos completamente na garganta enorme e implacável do tempo. A vida é preciosa porque acaba.

Nunca saberemos exatamente com total precisão de quem gostamos mesmo e de quem não gostamos mesmo, tal qual a linha do horizonte, sempre existirá uma zona cinza. O que não quer dizer necessariamente que se justifique e se louve a estagnação, retrocesso, conformismo e miséria coletiva. Em teoria — num somos racionais e mais inteligentemente desenvolvidos que todas as outras espécies de animais que quando não dominamos, matamos por prazer sob o pretexto de caça esportiva? —, ao menos, deveria ser o contrário porque viver é mutar, tentar de novo, adaptar, errar melhor, tentar errar menos com a ciência da inatingível perfeição?

O fato de nunca alcançarmos jamais poderia ser muleta pra nossa inércia, nosso "paumolismo" social. Nunca deveria sair da nossa boca que "as coisas são assim porque sempre foram assim e nunca vão mudar". Há de ser muito ingênuo pra querer "mudar o mundo", mais ainda pra acreditar que o mundo não está em eterna mutação desde muito antes de nascermos e continuará inabalável depois de morrermos. O nosso mundo, que tem dois terços cobertos por água, não derramará nem uma unidade (1) de lágrima sequer quando virarmos, enfim, camisa de saudade eterna. Somos formiguinhas escandalosamente pequenininhas e até que morramos, nossa vida é um eterno revezamento 4x400 metros rasos. Olímpico e diário.

Se eu retiro de mim a noção de ser, além de um CPF válido em todo território nacional, um ser humano histórico e social — única variante de bicho humano que pode se autointitular "indivíduo", sem soar ignorante, é o eremita — e fico só com a "obra prima", eu talvez não saiba ainda, mas já morri. Anulo meu direito de me reconhecer vivo, assinando sem ler todos os termos de uso possíveis. Sou um corpo vazio equilibrado por sistemas esqueléticos com opiniões formadas pelos que monopolizam os meios de comunicação, exclusivamente nada além de um sistema respiratório aspirando pólvora. Pra ser isso... é prefirível morrer dos vera. Sem cerimônia. Como todo mundo, fui parido por um ser humano, com uma puta dor. Não por um computador.

Autorizado, prescrito e carimbado pelo departamento de criatividade e imaginação da macarronada de tripa elétrica que te controla: e se o oxigênio for só um veneno aéreo que leva cerca de 80 anos pra nos matar, e a cada ano vamos aumentando — enquanto humanidade — aos pouquinhos nossa tolerância, aumentando nossa expectativa de vida, e estar vivo acabar sendo uma outra coisa a qual sequer suspeitávamos nas primeiras voltas em Saturno, quando ostentávamos cordões de ceroto e perfume de catinga de suvaco de novilho?