ABISMO PARADISÍACO

quanto mais olho pra dentro

mais me afogo

quanto mais olhar desatento

mais beleza ignoro

coração escangalhado

ao símbolo de amor universal, me refiro

não ao orgânico, que pulsa sangue

esse acredito que esteja bem

ou não, porque tenho bebido café

como tenho chorado e chorado

e tenho bebido pouca água

praticamente conflito declarado

contra meu fígado, estômago e

coração, esse valente coração

escangalhado, sofrido e nobre

o atrito das lágrimas com o chão seco,

sujo e gelado, é coisa de desiludido

mas o atrito é nobre, o atrito move

não sei se foi bem assim comigo

quanto mais olho pra dentro

mais me afogo

quanto mais olhar desatento

mais beleza ignoro

até porque

não sei o que fazer comigo

que mais que uma música,

é um estado de espírito

de quem vive em súplica

por algo que faça sentido

por algo que me deixe menos aflito

ou — pensando melhor —

por algo que não me deixe

por algo que esteja comigo,

mesmo em conflito

principalmente em conflito

porque o que nasce de positivo

num atrito é mais genuíno

e, se olhar bem, bem mais bonito

não queria sentir como sinto

não queria ser assim

não tô satisfeito

tô mal feito o mundo

não sei mais escrever isso

rodeado de firula, como acima

quanto mais olho pra dentro

mais me afogo

quanto mais olhar desatento

mais beleza ignoro

meu estoque de manobrinhas com letras,

semântica, sintaxe e neologismo tá igual eu:

esgotado, sem um centavo, sem respaldo

vou acabar precisando de marcapasso

pro meu coração escangalhado,

supondo que eu queira permanecer vivo

nesse teatro, nessa porra, nesse caralho

quanto mais olho pra dentro

mais me afogo

quanto mais olhar desatento

mais beleza ignoro

definitivamente em estado bélico

contra si mesmo

uma punheta ao marasmo e ao tédio

se apossa de mim, postulado enfermo

sou contra a memória!

olha que estúpido

e olha que nem sou

mais aquele do ensino médio

sou do pretérito

— desejaria ter medo do suicídio —

– i wish i was afraid from suicide –

- ojalá tuviera miedo al suicidio -

quanto mais olho pra dentro

mais me afogo

quanto mais olhar desatento

mais beleza ignoro

não sei buscar ajuda

penso em me matar todo dia,

penso todo dia, o dia todo

em dar um tiro no espaço que,

se ocupado, chamariam de monocelha.

não sei como ser feliz mais,

tampouco ser menos triste

ó, meu deus, coitadinho de mim!

só porque pensa demais e é alfabetizado

se acha artista, filósofo, escritor,

a voz duma geração ansiosa e depressiva

que finge e mente pros outros e pra si

como lava atrás das orelhas

pedindo a um deus inominado

pra acabar logo com o mundo

preu ir no bolo, por tabela,

preu não sentir mais essa tristeza

em sua forma mais pura e completa

quanto mais olho pra dentro

mais me afogo

quanto mais olhar desatento

mais beleza ignoro