PENSAR A MORTE É O ANTÔNIMO DE MÓRBIDO

rolê de bike na tarde dum domingo pandêmico

debaixo duma chuva lavadora de alma

com a força e a vitalidade dum anêmico

existo entre pingas e pingos, sem calma

pensar a morte me faz viver

é importante divagar devagar

sou esponja com a ajuda de fármacos

sofrendo e, com sorte, aprendendo, voilà

meço a vida em quebrados ábacos

inseridos entre lodosos fatos

pensar a morte me faz viver

é importante divagar devagar

meu capacete é meu cabelo sarará

meu escudo é uma devassa plenitude

minha oração é o canto de um sabiá

minha bicicleta é meu plano de saúde

minha lataria parece um corpo, mas é um motor

não almoço, não janto, não merendo: reabasteço

pensar a morte me faz viver

é importante divagar devagar

às vezes só quando decerto sou

viciado na escotilha do paralelepípedo

derretendo de suor feito bucho suíno

a cada entortada do que deixo escrito

mostro como é chique meu dress-code maltrapilho

pensar a morte me faz viver

é importante divagar devagar

um velho ciclista atravessou meu trajeto

junto da ideia de que se tudo der certo

chegarei à idade dele do mesmo jeito

com a panturrilha de concreto, no pique de escolta,

com orelhas e outras cartilagens de sobra

porque envelhecer é só pra carcaça, pra carne

não pro espírito, não pros bicho solto

pensar a morte me faz viver

é importante divagar devagar

me senti pedalando comigo

e com os comigos de mim

daqui uns anos, daqui uns metros,

uns quarteirões, umas esquinas.

sou do tamanho de um universo

ao passo semicorpóreo

das danças cósmicas

que protagonizamos