(quase) todo mundo quer rir
mas (quase) ninguém quer ser o motivo da piada
(quase) todo mundo quer fugir
mas (quase) ninguém quer cavar de colher
(quase) todo mundo quer ser entendido
mas (quase) ninguém quer entender
(quase) todo mundo quer ser procurado
mas (quase) ninguém quer procurar
todo mundo tem razão
ninguém emoção
ninguém abre mão
e não há espaço pra hesitação
e se alguém ousa questionar
o tratamento de gelo é a melhor
— e mais madura — maneira de lidar,
quem resiste à criogenia abstrata?
pra matar o grilo é preciso matar meu juízo?
(quase) todo mundo quer prioridade
mas (quase) ninguém quer priorizar
(quase) todo mundo quer ser orbitado
mas (quase) ninguém quer orbitar
(quase) todo mundo quer ser respondido com urgência
mas quando é pra responder, paciência
(quase) todo mundo quer ser escutado ativamente
mas ninguém sequer escuta, mesmo inativamente
de praxe só se espera a vez de falar,
falar, falar e... falar e falar e falar...
da vida dos outros, de conquistas pessoais,
do corpo e decisões dos outros, tragédias mil,
de mais méritos pessoais e vanglórias:
"olha como eu sou excelente! lindo! e inteligente!
graduado, mestrado, pós-graduado,
MBA em Massachúcetis e os caralho!
(pra matar o grilo é preciso matar meu juízo?)
fluente em desprezo e ofensa,
sou poliglota em falar bosta,
consigo humilhar em inglês, brasileiro,
mandarim, tcheco, russo e italiano
meu cocô vale mais que eu
e eu não cago fezes, cago cheques!
por favor, olha de novo... olha mais!!!
eu sou a sensação sensacional!
agora aplaude, curte e compartilha
se inscreva no canal e ative o sininho"
(quase) todo mundo quer ser lido
mas (quase) ninguém quer ler
aparentemente não desenvolvemos
aparato intelectual e cognitivo suficiente
pra assimilar que exigir é tão — tão! —
importante quanto abrir mão
é por isso que, ao fim e ao cabo,
é (quase) só você por você
e às vezes nem isso
e às vezes nem isso
pra matar o grilo é preciso matar meu juízo?
pra chamar os outros de cínico é daqui pra li
pra se assumir um cínico é daqui pra jamais
tacar pedra é fácil, sobretudo aos fãs de conflito,
(quem que, além de Cristo, perdoa Barrabás?)
difícil é fazer embaixadinha com o pedregulho
sem rachar nossas paredes e o teto de vidro
mas tento e apesar das fissuras: muito me orgulho
sono é descanso? pra mim é interlúdio
(o que seria de mim sem eu é
o que seria de eu sem mim)
é preciso calcular cada centímetro de um passo
sem jamais perder de vista a ultramaratona
é preciso calcular cada milímetro de um passo
sem jamais perder de vista a ultramaratona
e pra matar o grilo é preciso matar meu juízo?
sim, só a loucura, a histeria e a angústia salvam
minha sala de bem-estar é a beira de um precipício
onde brinquedos velhos, reflexos e reflexões se amalgamam
em verborragia psicológica e nociva
metamorfoseada em poesia envelhecida
em garrafas PET de filhote de camelo
num sol constante de 40º graus
no fluxo constante do igarapé do 40º,
quase (quase) o bodó mais bonito do bodozal