Perseguição on-line: Daniel Phillipe Gonçalves Menezes

Artigo para o blog O Extremismo Digital de Daniel Phillipe Gonçalves Menezes, programador sergipano autista e não-binário.

Este é o relato de Daniel Phillipe Gonçalves Menezes sobre sua experiência sendo perseguido por grupos extremistas na internet, do início aos dias atuais.

Começou em 2017, após jogar uma partida de Counter-Strike: Global Offensive, comecei a receber uma série de ofensas e ameaças de perfis aparentemente anônimos, a maioria vinda de perfis com os nomes “GOEC”, “Kyo” e “Dogola”. Vi que havia um padrão estranho e decidi investigar pela internet.

Após uma intensa busca, descobri que estava sendo vítima de ataques coordenados de um grupo extremista chamado Dogolachan, uma espécie de fórum aberto inspirado no site 4chan, no qual são comentados assuntos elaborados por membros do website que são recriminados pela sociedade, como apologia à pedofilia, racismo, misoginia, transfobia, ameaças, venda de drogas, etc.

As ofensas contra mim foram além do meus perfis pessoais: utilizaram fotos e criaram perfis em meu nome para me difamar perante amigos, conhecidos e parentes, chegando até mesmo a criar perfis falsos em meu nome em sites de conteúdo adulto envolvendo a prática horrenda de zoofilia, o ato de abusar animais sexualmente.

Pensei em abrir um boletim de ocorrência e ir atrás dos responsáveis, mas decidi investigar outras vítimas e vi que pouco adiantava. Vítimas como Lola Aronovich e Ricardo Wagner Arouxa são pessoas que sempre tentaram recorrer à polícia para se defender, e nada adiantava, devido à dificuldade da polícia em encontrar os suspeitos e prosseguir com os casos. Por isso, decidi por anos não procurar a polícia ou o Ministério Público, o que hoje considero um erro. Para não dizer que não fiz nada, fiz uma série de denúncias no portal Safernet, uma ONG que combate violência digital.

Continuei a receber ofensas e, após alguns dias, cessaram. Pensei que esse inferno havia acabado, mas eu não poderia estar mais errado.

As ofensas continuaram. Em 2018, tive a conta do YouTube bloqueada e apagada, além de receber inúmeras ameaças em minhas redes sociais. Com o passar dos anos, as ofensas continuaram, em um ritmo muito menor do que em 2017.

Porém, em 2020, as ofensas retornaram com maior intensidade, desta vez partindo de outras figuras conhecidas no submundo da internet.

Surgiram perfis como o “Overdose”, que se tratava de um indivíduo chamado Aristides Mathias Flach Braga, um conhecido neonazista do Rio Grande do Sul que realizava transmissões ao vivo promovendo racismo e misoginia. Ele também foi o criador do “Big Bosta Brasil”, um blog malicioso que ficou conhecido por se referir repetidamente ao participante Douglas como “macaco”.

A partir disso, compreendi que havia ficado marcado em grupos e panelas da dark web brasileira, assim como Ricardo, Lola, Rica Games, “Carlinhos” e outros. Esses alvos sofreram todo tipo de ataque na internet, incluindo falsas acusações de crimes bárbaros, como terrorismo, compartilhamento de pornografia infantil e estupro. Lola ficou conhecida por dar nome à chamada “Lei Lola”, que visa à proteção das mulheres na internet. O blog Extremismo Digital é inspirado no “Escreva, Lola, Escreva”, espaço no qual ela denuncia essas pessoas.

Retornando a Aristides, esse perfil passou a me ameaçar e a me perseguir por meio da plataforma Discord, juntamente com outros usuários anônimos.

A situação chegou a um ponto extremo quando, no auge da pandemia da Covid-19, em um período em que ainda não havia vacinas contra o vírus, minhas contas bancárias foram bloqueadas. Fui obrigado a me deslocar até as agências bancárias e passar um dia inteiro resolvendo o problema. Precisei me expor ao risco de contrair o vírus e levá-lo para casa, onde eu morava com duas pessoas idosas. Acredito que isso tenha sido mais uma ação de deboche por parte deles.

Os ataques dele e de seus aliados persistiram até o falecimento de 'Overdose', que ocorreu quando ele tentou assassinar um morador de rua junto a uma gangue neonazista; na ocasião, a vítima reagiu em legítima defesa utilizando uma faca.

Decorrido algum tempo, surgiu outra figura relevante que me persegue até a atualidade, sob os pseudônimos de 'Christopher Mogawdeeps' ou 'Chris Speedwagon'. Esse indivíduo iniciou o envio de mensagens enigmáticas em 2023 (entre setembro e outubro, pois não recordo a data exata). Após alguns meses, ele passou a me agredir de forma alarmante: invadiu meu e-mail pessoal e disparou centenas de conteúdos ofensivos em um curto intervalo, o que resultou no bloqueio da minha conta. Além de que, acredito eu, que esse indivíduo e o seu grupo vazaram conteúdo íntimo meu nas redes sociais. Isso prejudicou a minha vida social. Ao investigar o histórico desse sujeito, constatei seu envolvimento em crimes cibernéticos, delitos dos quais ele costuma se vangloriar.

O referido infrator confessou, em um vídeo do YouTube que mantenho arquivado, ter auxiliado e participado da invasão à conta da Primeira-Dama do Brasil, Janja Lula da Silva. Ele agiu em conjunto com outros criminosos virtuais para desestabilizar a segurança nacional e a diplomacia brasileira. Compreendi que um dos acusados de invadir o perfil da Primeira-Dama é, supostamente, um comparsa de Christopher, conforme citado em depoimento publicado pelo jornal Gazeta do Povo.

Após receber ameaças tão graves e perceber que a situação retornara ao patamar crítico de 2017, decidi acionar as autoridades policiais. Encaminhei uma série de queixas à Polícia Civil, à Polícia Federal e ao GAECO. As representações extrapolaram o território nacional, alcançando o FBI e o governo suíço, uma vez que as plataformas suspeitas utilizadas pelos agressores são hospedadas naquela jurisdição — como é o caso do serviço de e-mail anônimo Proton Mail.

Apesar disso, as ofensivas persistiram, com a criação de contas falsas em sites pornográficos grotescos e perfis fakes com meu nome em redes sociais como Pinterest e Instagram, os quais identifiquei ao realizar buscas no Google. Subsequentemente, recebi mensagens hostis no Discord e, para meu espanto, uma foto da minha carteira de identidade escaneada. A situação escalou a tal ponto que meus correios eletrônicos pessoais e minha conta no Discord foram banidos por supostas violações das diretrizes das plataformas, embora eu jamais tenha publicado algo que infringisse as regras de tais empresas.

Acredito que tenha sido uma manobra desses indivíduos para me lesar novamente. Em decorrência disso, perdi documentos e arquivos cruciais, sendo obrigado a me deslocar durante dias para locais situados a uma hora de distância da minha residência.

As mensagens hostis mais recentes que recebi provêm de e-mails anônimos sob os pseudônimos 'Maquinista' e 'PCDs e Viados merecem morrer'. O remetente manifesta desejos de morte contra mim, incitando-me a registrar o ato. Além disso, proferiram ofensas capacitistas e homofóbicas, utilizando o termo 'viado autista'. As mensagens também mencionam a Deputada Federal Érika Hilton, demonstrando profundo rancor por sua atuação na causa trans. Suspeito que utilizem um modus operandi recorrente: a apropriação de dados de terceiros para ataques de 'falsa bandeira' ou até para a viabilização de fraudes bancárias.

Somado à violência verbal, eu afirmo aqui meu telefone foi hackeado. Após realizar modificações no sistema para otimizar o desempenho em jogos e aplicativos pesados, descobri, um mês depois, que o aparelho estava sendo utilizado para mineração de criptomoedas sem o meu consentimento. Ao tentar excluir os aplicativos suspeitos, o celular sofreu uma formatação automática e passou a apresentar falhas de funcionamento. Quero pontuar os adwares e queda de desempenho suspeito em meu computador, que talvez possa ser um “fruto” do arquivo .ipa que coloquei em meu telefone.

Por fim, desejo destacar que essas pessoas estão ligadas a criminosos de elevada periculosidade, integram grupos extremistas ou apresentam elevado grau de risco em si próprio: Kyo, também conhecido como André Luiz Gil Garcia, assassinou uma mulher em uma praça motivado por misoginia, após abordar aleatoriamente duas jovens e atirar na nuca de uma delas em Penápolis (SP), em junho de 2018, antes de se suicidar. GOEC é apontado como pseudônimo adotado por diversos perfis neonazistas que disseminam ataques contra mulheres, indivíduos negros, pessoas com deficiência e homossexuais, além de propagarem ameaças de atentados a universidades e outras instituições públicas.

Marcelo Valle, fundador do Dogolachan, cumpre pena em regime de segurança máxima — na mesma unidade prisional que já abrigou Fernandinho Beira-Mar e Adélio Bispo — por delitos graves como terrorismo, disseminação de material pedófilo, racismo, incitação à violência e outros crimes. Aristides foi morto após ele e seu grupo de neonazistas tentarem assassinar um morador de rua, em um episódio ocorrido na Cidade Baixa, em Porto Alegre (RS), em outubro de 2024. Christopher é um cracker anônimo, homofóbico e preconceituoso, que persegue ativistas e ridiculariza as instituições democráticas brasileiras.

Tenho esperança de que esses grupos extremistas desapareçam algum dia. Pode ser um sonho impossível de se realizar? Sim, é possível. Mas quem sabe? Há muito trabalho a ser realizado em nossa sociedade para transformar a mentalidade dessas indivíduos. Esse é um dos principais propósitos do meu blog: alertar a população e documentar os danos causados por essas facções. Podem derrubá-lo com denúncias falsas, como já ocorreu na primeira versão do site, mas eu não pretendo desistir. Estou fazendo o que acho ser correto.

Artigo escrito por: Daniel Phillipe Gonçalves Menezes

Publicado no blog O Extremismo Digital

Disponível em: https://oextremismodigital.blogspot.com/?m=1