Computadores avançam, artistas pegam carona

Computadores Fazem Arte - Chico Science e Nação Zumbi

Na era das redes sociais digitais, fomos apresentadas já há um bom tempo, a cultura dos influenciadores. Ela não é necessariamente consequência de uma trajetória de trabalhos e entregas profissionais, mas sim, um estado de existência representativa, diretamente conectada com a divulgação de produtos, serviços e estilos de vida. São nomes sem ligação com realizações importantes, povoando os feeds das redes com um grau de relevância mínima, tal qual a matéria icônica geradora de memes “Caetano estaciona carro no Leblon”, clássica.

A cultura da atenção, que bem resumidamente entrega pequenos pedaços de conteúdo para manter a audiência ligada e acompanhando aquela sequência, é a maior propulsora também da falta de atenção e interrupções em nossos dias. Esse assunto é bem mais complexo e precisa de mais olhares, pois envolve algoritmos, condições de saúde mental e carreiras profissionais, mas o ponto que gostaria de observar aqui é o limiar que chegamos entre o artista e o produtor de conteúdo.

Se o posicionamento da maioria das marcas gira em torno do engajamento nas redes, qual o espaço para criação de uma arte original que não se enquadre nesse modelo? Muito pouco. O modelo algoritmo vai acabar legitimando o artista que compõe, interpreta, mas também vende seu trabalho e mantém uma constância na representação da sua persona. Esse formato favorece a ascensão da carreira de uma pessoa estrategicamente engajada, muito mais do que um artista talentoso e verdadeiro. Quando digo verdadeiro me apego sim a aura romântica da arte, pois ela resiste.

Se pegarmos as playlists do Spotify, os artistas revelações e que produzem canções alternativas ao mainstream são cada vez mais escassos. É uma selva onde as grandes gravadoras e empresas de conteúdo como a Mynd, tem um peso modelador na hora de definir os nomes que entram e protagonizam as playlists. Isso sem falar no investimento pago que também acontece nos bastidores, estimulando a frequência com que um artista aparece nas playlists.

Essa relação visando a promoção de uma música mais comercial, por exemplo, não é nova na indústria. As gravadoras segmentam seu artista e sugerem números de faixas “livres”,

contanto que entreguem também uma quantidade x de hits que são feitos com o intuito de viralizar. O que a viralização de uma música faz pela carreira de um artista é avassalador em números e, obviamente, todos que trabalham com arte merecem ter seu trabalho reconhecido, mas essa régua tem diminuído o alcance dos artistas independentes e que se arriscam e inovam na produção do seu som.

Aqui, não estamos falando apenas do modelo vigente de criação musical, mas também de um formato de comportamento digital. O formato do influenciador é incumbido sistematicamente aos artistas, que acabam concorrendo pela atenção com os próprios produtores de conteúdo, que na maioria das vezes, não são artistas e focam seu tempo para entreter e engajar sua audiência. Acredito que essa não seja a única faca de dois gumes do mercado fonográfico, mas tem alterado o comportamento desde a produção ao consumo da música. O que estamos assistindo são artistas desistindo da sua carreira.

Seja pela pressão de selos ou falta de oportunidades para fazer shows, pois convenhamos, os maiores headliners do festival também são decididos pelos números que giram em torno de sua audiência nas redes, para além da sua performance no palco. As oportunidades estão ficando mais exclusivas e a emoção está sendo compactada.

Escrevi esse texto ouvindo uma das maiores bandas da história do Brasil, propulsora de um movimento, um arrebatamento sonoro que abordou temáticas regionais e entregou ao mundo álbuns atemporais. Nação Zumbi me ajudou a refletir sobre como a Matrix já está em funcionamento, organizada em favorecimento do modelo de negócio. A forma está pronta para receber mais massa bruta que pode ser facilmente modelada em prol do sucesso de uma minoria vigente.

Estamos sendo sugadas por um modelo fadado ao esgotamento e distanciamento criativo.

Os nomes mais consolidados na indústria conseguem sobreviver sem compactuar tanto com a imersão da figura pública nas redes sociais, mas para a nova geração, a midiatização da rotina, a publicidade de produtos e até mesmo a divulgação de jogos bem duvidosos, torna-se parte do pacto para sobreviver no mundo online, pagar as contas e quem sabe, conseguir dar continuidade a sua carreira. Talvez em algum momento, ainda consiga cantar em um evento.

Os caminhos alternativos sempre podem aparecer, “algum mistério sempre há de pintar por ai”, e pela força natural das coisas, novos artistas ainda trabalham majoritariamente pelo seu talento. Torço por isso, mas não me acomodo em ver nomes tão inspiradores da cena, comentando sobre como tem sido impossível sobreviver só de música no Brasil.

Precisamos valorizar os eventos alternativos, a música alternativa e principalmente, montar um plano de fuga para não depender da Big Tech, utilizar suas ferramentas, mas não entregar nossas esperanças em suas mãos. Esse cerco das redes sociais é limitador e nós que não compactuamos com tetos baixos, precisamos refletir. Se não criarmos novos espaços, onlines e físicos para promoção da cultura, vamos fadigar de tanta mesmice e também não vamos nos perdoar por trocarmos talento por influencers rasos, que vão nos vender mais uma coreografia junto com uma revolucionária pasta de dente.

Esse é só o começo de uma investigação que pretendo partilhar por aqui, por ali, por acolá. Escrevo para alinhar pensamentos, mas também para manter esperança.