No processo da solução de um problema, o resultado vem com o tempo, mas quase sempre, esse movimentao envolve a falta de algo e o momento de alumbramento. Para execução de um trabalho é preciso em um primeiro momento, entender a complexidade da questão e tentar juntar todas as peças possíveis para encontrar a solução. Isso nos é ensinado ainda nos primeiros passos fundamentais da alfabetização para uma parcela relevante de pessoas no mundo. E com o tempo, vamos adaptando essas informações para conseguir êxito em diferentes tarefas cotidianas.

Dentro dessa gama enorme de conhecimento que vamos aperfeiçoando durante a vida, algumas ideias são mais facilmente repetidas do que outras. A constância torna-se uma força geradora de atualizações e a falta de prática, pode culminar no descarte ou no esquecimento de determinado interesse. Atualmente, essas considerações são os motores que fazem funcionar os grandes movimentos tecnológicos do mundo.

No primeiro contato mais direto com a computação, o resumo que me foi apresentado sobre seus maiores desafios atuais, constava a gestão da informação em grandes volumes de dados distribuídos, modelagem computacional de sistemas complexos artificiais, naturais, socioculturais e da interação homem-natureza, o desenvolvimento tecnológico de qualidade e a ampliação do acesso participativo e universal ao conhecimento.

Essas questões geralmente são discutidas por estudantes, profissionais e entusiastas da tecnologia, mas elas deveriam circular atingindo o maior número de pessoas possíveis, pois a tecnologia avançou em uma constante tão grandiosa que pode viabilizar transformações diversas em nossa realidade.

O que já foi promessa, tornou-se fato quando o bilionário Jeff Bezos levou o seu irmão e mais alguns passageiros para uma viagem espacial muito rápida, mas impactante pelo tamanho do feito.

Passeios como esses tendem a tornar-se cada vez mais comuns para uma parte elitizada da população. No entanto, as mesmas ferramentas, cérebros e sistemas que possibilitaram este feito, também podem nos ajudar a construir direções para superar os grandes desafios que teremos pelafrente.

Lembro-me sempre da constatação: tudo que existe nasceu de um sonho. E assim, permito-me por um viés interdisciplinar planejar ações dentro do ambiente tecnológico.

Parte I - Para Você

Como Yuval Harari aponta em uma linha cronológica elaborada em seu livro Homo Sapiens, chegamos até aqui nos organizando para lidar com desafios que por várias vezes colocaram empecilhos em nossa continuidade coletiva. Até hoje, esses desafios por vezes ainda são os mesmos enfrentados pelos nossos ancestrais, como chuvas fortes ou os períodos longos de estiagem.

No entanto, também seguimos elaborando complexas ferramentas para solucionar problemas, aprimorando e inventando formas de progredir perante os obstáculos modernos, desenvolvendo uma visão a longo prazo, sempre a um passo de mudanças grandiosas de paradigmas mundialmente divididos. Essas alternâncias de situações foram aceleradas após o lançamento da internet 2.0, onde todas as instâncias governamentais ou privadas, começaram a estreitar relações com os principais vetores da tecnologia.

A tecnologia é uma palava que tem origem no grego tekhne que significa técnica, arte ou ofício, acompanhado do sufixo logia que significa estudo. Utilizando-se de uma necessidade coletiva de implementar sistemas que facilitassem nossa continuidade da melhor forma, driblando todos os tipos de empecilho, é que estudamos nossas possibilidades e aplicamos nossos instrumentos, avançando estruturas físicas e não físicas, visando a otimização de situações para agentes envolvidos.

O ponto a ser revogado é quais são as empresas que direcionam essas pautas transformadoras de paradigma, pois a Big Tech, como são conhecidas essas organizações, estão cada vez mais com poder de interferência cultural, social e político em diversos países do globo. Precisamos disputar o poder de ação, repensar para onde esses líderes modernos estão direcionando o seu olhar e claro, diversificar esses caminhos. Os engenheiros de computação das maiores universidades estadunidenses estão e continuarão fazendo parte do grupo que dita os rumos da tecnologia, mas não podem mais agir com exclusividade.

A propagação de ideias, a influência política e o estímulo no comportamento de consumo são descobertas já antigas do que empresas especializadas podem realizar com informações em grande quantidade. Escândalos como o do Facebook em parceria com a Cambridge Analytica, trouxeram pouquíssimas consequências para respectivas organizações e seus líderes. Nessa indústria, por mais que seja constrangedor e custe alguns milhões ultrapassar limites de privacidade, a prática determinante do negócio tem em seu DNA, o estímulo constante para que usuários da internet gerem informações em redes que possibilitem mineração por algoritmos construídos com propósitos ligados ao interesse mercantil.

Existem inúmeros outros vieses de exploração rentáveis nesse universo, mas há sempre uma preocupação grande com a mineração de dados dos usuários. Talvez, seja o negócio que mais se alastrou por diversos setores industriais, sendo que, atualmente, todas as empresas de grande porte operam como bancos de dados ou tem relações diretas com especialistas que executam este serviço.

Além do armazenamento, também há a análise e até mesmo a venda de informações entre banco de dados mundo afora, sem que a pessoa responsável por essa geração inicial de informação seja remunerada ou saiba desses acordos.

Outra consequência da viabilização de grande quantidade de dados em rede, são as notícias falsas. Um exemplo atual dos danos visíveis da sua disseminação, foi o crescimento na utilização de remédios cientificamente comprovados sem eficácia no combate à Covid-19. A pandemia foi um verdadeiro extermínio de brasileiros e teve como grande aliado, vídeos, discursos, campanhas governamentais e outras mídias diversificadas que propagaram informações que contestavam as medidas de saúde orientadas pela OMS.

Segundo o portal Olhar Digital, o YouTube removeu 30 mil vídeos com informações duvidosas, erradas ou contraditórias relacionadas ao Covid-19. Essa política de banimento como aponta Guilherme Felitti no podcast Tecnocracia, episódio que fala sobre o Youtube, funciona mais como uma medida relacionada com o marketing do que com a restrição de informações falsas na plataforma.

Na internet, as ferramentas podem ser vistas como uma via de mão dupla, pois o Big Data também foi fundamental na pandemia para rastrear e monitorar infecções e mortes referentes ao vírus. As próprias redes sociais digitais foram fundamentais para que serviços continuassem sendo prestados e o mundo não sofresse ainda mais com essa crise emergencial de saúde. No entanto, a maioria das tecnologias que foram utilizadas em larga escala mediante as restrições físicas impostas pelas medidas de segurança, não foram inventadas neste período.

E novamente, um grupo seleto de empresas obteve lucros recordes, mesmo extrapolando a privacidade ou não garantindo segurança necessária para a operação em grande escala. O caso mais marcante foi do Zoom, aplicativo que viabiliza chamadas em vídeo e que foi responsabilizado pelo vazamento de dados de mais de 500 mil usuários, segundo reportante do New York Times. Mesmo sendo investigado e tendo uma declaração de seu CEO admitindo algumas falhas, a empresa obteve receita equivalente a 328,2 milhões de dólares ainda em 2020.

A discussão em torno de como é feita a digitalização de nossas tarefas cotidianas é algo que precisa ser realizada de forma massiva, em prol da nossa segurança. Nossos dados valem dinheiro para empresas, e essa troca não parece nos beneficiar muito quando pensamos nos riscos coletivos que corremos. O importante em manter um debate ativo sobre segurança e privacidade digital é reconhecer que cada vez mais estaremos em uma conexão imersiva com a internet, e que é necessário que esse ambiente esteja preparado para o que se propõe. Nós podemos questionar os parâmetros de como esse lugar tem sido construído e ajudar a elaborar atributos que possam agregar respeito e privacidade ao que podemos chamar de ambiente virtual.

Temos que participar ativamente dessa composição tecnológica, como plantas que trocam energia entre si, crescendo em conjunto, modificando-se e também transformando o próprio habitat que estão inseridas.

II – Para Nós

O impacto da implementação das redes sociais digitais em nossa vida foi tamanho que chega a ser difícil relembrar situações nas quais elas não existiam. Sobre o comando de Mark Zuckerberg, o Facebook tornou-se a maior empresa controladora de dados do planeta. Hoje, o Brasil é o terceiro país com maior número de integrantes na plataforma, perdendo apenas para os Estados Unidos e a Índia, que ocupa a primeira posição.

Muitas das atualizações do Facebook foram benéficas e oportunas para trocas de conhecimento e discussões em grupos de interesses específicos. No caso do Instagram, seu produto mais “descolado”, as ferramentas de anúncio ajudam negócios pequenos a funcionar em períodos economicamente desafiadores como os atuais.

Além de um espaço amplo que trabalha uma noção dividida de comunidade, o Instagram, Facebook e o WhatsApp tornaram-se ferramentas intrínsecas ao dia a dia de um número elevado de pessoas. O conceito de hub de comunicação parece pequeno quando observamos todas as aplicabilidades conjuntas das redes sociais digitais. É um poder que parece agregador de muitas possibilidades, mas ele é sim, limitado. E nós precisamos estender a noção de internet para além do que é apresentado como pronto e prático.

Podemos refletir sobre um futuro com pluralidade tecnológica, encontrando seja no hardware, software ou na web, uma brecha para pesquisar e contribuir para a criação dessa idealização mais democrática. Um exemplo de comunidade muito ativa em nosso país é formada em torno da transparência de dados públicos, e vai desde serviços específicos de raspagens de dados até organizações que monitoram constantemente a utilização de verba pública.

A Serenata Iluminada, Transparência Internacional e Open Knowledge Brasil são três plataformas que utilizam a tecnologia com uma visão cidadã para otimizar a visualização de informações importantíssimas para o Brasil e o mundo. Cada vez mais, se faz necessário a amplificação do acesso de informações públicas em um país como o nosso, que sofre constantemente ataques à liberdade de expressão e à democracia.

Estamos caminhando para um futuro onde os dados são mais transparentes, mas a passos que podem ganhar vitalidade conforme profissionais de áreas diversas se interessem pela tecnologia e decidam também colaborar. Assim, poderemos pensar em um futuro mais solidário quanto a troca de conhecimento em prol de bens coletivos.

Como Flusser coloca em O Mundo Codificado, “quem prevê não vê o que se aproxima, mas vê a direção rumo a qual o presente se afasta”.

Estamos nos afastando de uma noção passiva em relação aos aplicativos, internet e redes sociais digitais. O próximo passo é disputar os cargos até termos chance de fundarmos nossas próprias empresas tecnológicas, baseadas em progressões culturais direcionadas ao crescimento coletivo e não apenas ao lucro sob custo da exploração da privacidade.

Quando Eduard Snowden pediu demissão do seu emprego na sede da NSA que ficava em uma carismática ilha havaiana, o jovem com menos de 30 anos tinha consciência do que precisava fazer. Empoderado por um forte senso patriota e um vasto conhecimento tecnológico, Snowden decidiu botar em prática o plano para viabilizar o maior vazamento de arquivos de espionagem confidenciais dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Snowden, Chelsea Manning, Julian Assange, são nomes que estão cravados na história dos vazamentos de dados dos Estados Unidos e do mundo. Suas atitudes foram realizadas por motivações diferentes em grande parte, mas o senso de que governos e empresas espeionarem pessoas era errado, os uni. No caso Snowden, empresas como Microsoft, Google e Facebook também estavam envolvidas por algum lado nesse complexo sistema. Não muito tempo depois, o escândalo do Cambridge Analytica apontou que o Facebook não parou de tentar capturar, mapear e vender dados de seus usuários sem que eles soubessem.

O debate sobre um design mais humanizado e uma noção menos evasiva da tecnologia, é uma página que escreveremos todos os dias até o fim dos tempos. O ex-Google Tristan Harris, alerta já há algum tempo que precismos identificar problemas sérios no modo como alguns aplicativos, redes sociais digitais e grupos interferem na comunicação de maneira atribulada. Na história do desenvolvimento tecnológico, a lei e a ordem sempre vieram depois do desdobramento de problemas em grandes proporções, como medida de redução de danos, mas nunca antecipando-se aos perigos eminentes de um poder cada vez maior e menos diversificado.

Discutir novos modelos empresariais, sua responsabilização e como as pessoas podem ajudar a remodelar esse sistema é o caminho para a elaboração de uma situação tão potente que chega a soar ambicioso demais imaginar, mas é verdade, a tecnologia não está pronta e todos os profissionais do mundo precisam admitir que podem participar como protagonistas desse futuro muito próximo.

Segundo Flusser, para mudarmos o homem, precisamos mudar a fábrica e torná-la mais parecida com escolas onde aprendemos, compartilhamos e produzimos produtos que façam sentido em nossa realidade.

Este ensaio não pretende passar uma visão otimista, por mais que faça parte da minha natureza. Mas olhando para todas as ferramentas criadas por engenheiros, programadores, analista de dados, sinto muita esperança para o futuro, quando desenvolveremos sistemas a partir de engenheiros-jornalistas, programadores-botânicos e analistas de dados-sociólogos. Assim, poderemos estar mais próximos na divisão de objetivos, como por exemplo, ajudar no combate contra o desmatamento através de conhecimentos interdisciplinares e ferramentas tecnológicas. Se progredirmos coletivamente ambicionando a soma de saberes, existirá alguma alteração grandiosa no caminho coletivo. Para isso, humanidades precisam adentrar ao universo da tecnologia e nunca mais sair.

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Livros:

Byung-Chul Han – Favor fechar os olhos, Hiperculturalidade

Yurval Noah Harari – Homo Sapiens, Homo Deus

Luke Harding – Os Arquivos de Snowden

Vilém Flusser – O Mundo Codificado, O Universo das Imagens Técnicas

Links:

Maiores Desafios da Computação www.sbc.org.br

Falhas no Zoom https://www.nytimes.com/2020/04/02/technology/zoom-linkedin-data.html

Netflix no mercado de games https://www.protocol.com/netflix-video-games-mike-verdu

Facebook criará um Metaverso https://www.theverge.com/22588022/mark-zuckerberg-facebook-ceo-metaverse-interview

Caso Cambridge Analytica https://brasil.elpais.com/noticias/caso-cambridge-analytica/

Desemprego Bate Recorde https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2021/06/30/desemprego-pnad-ibge.htm?cmpid=

O Youtube e a Desinformação https://manualdousuario.net/podcast/tecnocracia-18/

Receita do Zoom aumenta durante Pandemia https://www.infomoney.com.br/mercados/lucro-do-zoom-dispara-mais-de-1-000-no-1o-tri-e-vai-a-us-27-milhoes-com-aumento-de-usuario-em-meio-a-pandemia/